
Filomena Graça Moreira, vive nas Caxinas, Vila do Conde e foi uma das demais vítimas de cancro da mama. Nasceu a 24 de Maio de 1958, tendo actualmente 50 anos. É casada, tem dois filhos e exerce a profissão de costureira. No 3ºperíodo, o nosso grupo pretende realizar um vídeo resumo sobre o nosso projecto, no qual iremos ver focado todas as fases da doença, desde o diagnóstico até à cura, de modo a transmitir a realidade vivida pelos doentes oncológicos. Como fonte para o fazer, utilizaremos diversos testemunhos recolhidos, inclusive a entrevista que fizemos a Filomena Graça Moreira, vítima do cancro da mama.
1) Qual foi o tipo de cancro que lhe foi diagnosticado.
Cancro da mama.
2) Há quanto tempo lhe foi diagnosticado o referido cancro?
Há cerca de um ano, em Março de 2008.
3) Como detectou a doença?
Todos os anos fazia exames de rotina (o papanicolau, mamografia), era costume… E como tal, em 2008 repeti os exames. Quando fui fazer a mamografia, a radiologista detectou algo de anormal. Eu entretanto perguntei o que era e disseram-me que seria o médico a explicar-me tudo. Depois fui mostrar os exames ao médico, onde me foi explicado que não tinha nada de grave, mas que seria necessário fazer uma ressonância magnética e outro tipo de exames. Fiz os exames pedidos e voltei ao médico para levar os resultados. Foi nesta consulta que o médico me anunciou que o diagnóstico revelou-se aquilo que ele pensava e que eu tinha um tumor na mama. De seguida, enviou-me para o Hospital de São João, onde iniciei os tratamentos.
4) De que forma o dia em que descobriu a doença mudou a sua vida?
A vida não mudou. Eu apenas pensei que seria o inicio de um novo ciclo na minha vida. A partir daquele dia, passei a ser mais uma das vítimas do cancro e foi assim que enfrentei. Actualmente, continuo a trabalhar, faço a minha vida normal.
5) O que sentiu quando descobriu a doença?
Eu acho que até encarei bem, porque o médico soube explicar com delicadeza que a doença poderia ser melhor do que aquilo que ele pensava. A doença estava ainda na sua fase inicial e que a cura era muito provável. Fiquei nessa esperança. Nunca chorei.
6) Considera que foi bem informada pelos médicos sobre todo o tratamento?
Sim. Quando tive a primeira consulta no Hospital de São João e o primeiro contacto com o operador, ele disse-me que poderia ser preciso retirar o peito, dependentemente da forma como iria ocorrer a evolução. Eu fui a própria a dizer que se fosse preciso retirar que retirasse. Houve sempre muito diálogo e o médico sempre me explicou tudo com muito cuidado.
7) Em alguma ocasião teve de procurar apoio, ou foi-lhe concebido apoio imediatamente?
Nunca procurei nada. O médico que me diagnosticou a doença, enviou-me logo para o São João, onde comecei os tratamentos.
8) Recebeu algum tipo de apoio psicológico?
Não, porque não quis. Mas na fase de quimioterapia, para quem começasse a chorar, como já presenciei algumas vezes, o psicólogo que circulava pela sala, ia logo ter com essas pessoas para dar apoio. Eu como fui sempre uma pessoa muito animada e alegre, encarei bem e nunca precisei. No final da operação da remoção do peito, o psicólogo apareceu para falar comigo, mas quem precisou mais foi a minha filha que estava a chorar e ele falou mais com ela.
9) Quanto tempo demorou a iniciar os tratamentos depois do diagnóstico?
Entre a mamografia e a cirurgia para retirar o peito decorreu cerca de um mês. E depois seguiram-se outros tratamentos, nomeadamente a quimioterapia.
10) A que tipo de tratamentos foi sujeita?
Eu realizei uma cirurgia e recebi quimioterapia. Depois da cirurgia de remover o peito, tive uma consulta e o médico disse-me que eu só tinha de fazer quimioterapia. Iniciei a quimioterapia 28 dias após a operação. Fiz ao todo quatro sessões de quimioterapia, de 28 em 28 dias. Cada tratamento durava cerca de seis horas. À medida que fazia as sessões custava cada vez mais, a primeira vez não custou tanto. O último tratamento foi o pior de todos. Antes dos dias das sessões, sentia-me sempre extremamente nervosa, a quimioterapia mexia muito comigo.
11) Qual a fase dos tratamentos que mais lhe custou?
A pior fase dos tratamentos foi quando me caiu o cabelo. Eu passava a mão nos cabelos e os meus cabelos caiam aos «pedaços». Então eu decidi cortar o cabelo curto. Depois do primeiro tratamento de quimioterapia, nos dias seguintes o cabelo começa logo a cair, mas os médicos e os psicólogos já me tinham avisado. Também nos dias seguintes às sessões de quimioterapia só conseguia estar bem deitada e não conseguia ver a luz. Sentia-me também muito enjoada, não conseguia manter a cabeça de pé.
12) Quais os cuidados que tem de ter daqui para a frente?
Durante os próximos cinco anos tenho que tomar um comprimido por dia que os médicos me receitam e já estou consciente que eles fazem parte da minha vida, nos próximos anos. A partir de agora, todos os meses de Março tenho de fazer exames de rotina, pois sou uma doente oncológica. Sei que sempre que for ao médico, por uma gripe por exemplo, tenho de informar o médico sobre a minha situação, pelo menos durante o tempo em que tomar os comprimidos.
13) Sentiu-se sempre bem tratada?
Sim, os médicos foram sempre amáveis, disseram-me as coisas com muito cuidado.
14) Considera que os serviços prestados pelos profissionais e os respectivos meios para o tratamento poderiam ser melhores?
Eu acho que os serviços são razoáveis. Senti que os enfermeiros são pessoas preparadas para lidar com este tipo de situações. Há sempre médicos presentes na sala de quimioterapia e psicólogos também. Também me marcaram consultas com o nutricionista. Nunca precisei de procurar ajuda exterior ao Hospital, nem gastar dinheiro em alguma situação.
15) Onde foi buscar força para ultrapassar todos os momentos difíceis.
A força encontrei dentro de mim, na vontade de querer vencer esta luta por mim, pelo meu marido, pelos meus filhos e pela minha netinha, que estava prestes a nascer. Eu queria estar presente quando ela nascesse. A doença fez-me sentir uma pessoa muito querida na família e percebi que a minha família gostava realmente de mim. Às vezes, tinha de ser eu a dar-lhes força, porque eles estavam pior do que eu. Tive sempre muita fé e sentia que tudo ia correr bem. Fui sempre muito optimista e isto ajudou-me a encarar bem.
16) Considera que falar com outras pessoas que se encontram numa situação semelhante à sua, conforta-a?
Sim. É muito preciso falar com os outros. Até porque numa fase inicial, nós gostamos é do apoio daqueles que nos compreendem melhor que ninguém, aqueles que já passaram por aquilo que estamos a passar. Eu nas sessões de quimioterapia até costumava contar anedotas, quando chegava sempre alguém para realizar as sessões pela primeira vez, para distrair essas pessoas. Nota-se perfeitamente que as pessoas chegam muito assustadas.
17) Deixe uma mensagem de apoio a outros doentes.
Muita fé, muita coragem e força de vencer, porque até aquela etapa da vida somos unicamente nós. Depois dali somos nós, a doença e toda a nossa família. Damos por ela que é possível gostarmos ainda mais de nós.